Tuesday, August 29, 2006

A Ilha Deserta de todos nós

Lost

Não estamos sós. Não vivemos sós. Solidão pode ser apenas um estado de espírito. Quem sabe um desolador estado de consciência.
Podemos nos sentir sozinhos em meio a uma multidão, em um show, shopping lotado ou engarrafamento. No entanto, muitas vezes no recôndito de nosso quarto, de nossa casa; nos sentimos habitados.
Como explicar essa sensação de vazio quando cercados e de preenchimento quando isolados, é mais um dos mistérios da mente humana. Nesta complexidade do ser, da alma; tentamos evitar o inexplicável.
Quem disse que a vida é fácil? Onde está escrito que você deve crescer, casar e ter filhos necessariamente nesta ordem? Na Bíblia está escrito: “Crescei-vos e multiplicai-vos.” Porém, nos dez mandamentos, não há nenhuma lei a respeito. A felicidade pra um, pode significar o desgosto de outro.
Somos livres para optar por um caminho nessa encruzilhada que é a vida. Não jogue a culpa nos outros. Não responsabilize as pessoas pelos seus fracassos, angústias e atitudes. Atribua a si próprio, assim como faz com seus sucessos e conquistas. Você não é obrigado a conviver com ninguém, a cometer determinados atos.
Você só seria obrigado se sobrevivesse a um desastre aéreo e se encontrasse em meio a uma ilha deserta, com outros indivíduos sem comunicação externa. Isolado, perdido, se entrosaria ao grupo para suprir o que te falta no momento. Repensaria sua vida, seus conceitos, suas atitudes; se arrependeria daquilo que fez ou não fez. Tudo porque em situações extremas na vida, sempre reavaliamos o nosso ser, a nossa essência. “És pó, e ao pó voltarás.” Você é apenas um grão de areia nessa infinita praia do universo. Então tem que fazer por si.
Érico Veríssimo é que estava certo quando escreveu: “No fundo de todas as coisas, só existe essa verdade triste, nós vivemos em solidão.”

Nova Publicação No Armazém Literário. Semana de 21/08/2006

O Morador


O dia de sol fugiu da ilha, na hora em que o cortejo passou. No momento do adeus, ao mais antigo morador, a chuva parou.

A imagem continua nítida em minha mente. Sempre como se fosse um vídeo-clipe. O sol repentinamente sumindo, as nuvens negras e carregadas cobrindo o céu, a chuva caindo com uma força nunca antes vista. Como se fosse destruir a ilha, arrancar as árvores, quebrar as vidraças das cabanas e levar tudo em direção ao mar, com uma fúria avassaladora.

O tempo existe pra isso: pra mudar. Nunca acreditei que um ser humano tivesse algum poder pra alterar condições climáticas. Sempre acreditei nos deuses. Esses seres invisíveis que andam por aí, brincando com as coisas, modificando o mundo por onde passam e criando acontecimentos inexplicáveis. Essas coisas que acontecessem na vida da gente e não se sabe nem porquê.

Naquele dia porém, senti uma força incomum, uma revolta que agitou a ilha. Senti medo. Todos moradores sentiram. Isolados pela natureza. Isolados da civilização. Isolados naquele pedaço de terra envolvido pelo mar, pelas ondas.

Matias Corrêa, o habitante mais antigo e sábio da Ilha do Mel, sofreu um ataque cardíaco. Morte súbita. Os nativos se reuniram para o funeral. Foi no momento em que se dirigiam para enterrar o corpo que o tempo mudou bruscamente. Parecia que a ilha iria afundar como aconteceu com Atlântida ou ser levada pelo vento. Até o momento do corpo ser enterrado. E então, quando a última pá de terra foi despejada sobre o caixão, tudo parou: a chuva, o vento, o balanço das árvores. Aos poucos o sol retornou.

Todos voltaram à praia e aproveitaram os resquícios do dia. Após o medo, a destruição, o calafrio e a sensação de que algo muito estranho estava presente. Parecia que uma alma inconformada vagava entre as pessoas, causando a impressão mais desagradável possível. E somente à noite, durante a madrugada, após voltar sozinha de uma festa, me atirar na cama e apagar na mesma hora de tão cansada, acordei com aquele homem me olhando, rindo pra mim. Enxerguei em meio ao quarto escuro, iluminado por uma fresta de luz. Ele parado na porta, com um olhar debochado. Eu apavorada. Até ele entrar no banheiro e sumir. Levantei, acendi o abajur e permaneci acordada.

A porta se abre com violência. Levo outro susto. É apenas a Fernanda, a Sabina e o Raul, voltando embriagados e fazendo escândalo. Sinto-me protegida. Agradeço a companhia e durmo tranqüila.

Amanhece. O sol penetra entre as nuvens. Vou até o farol. Tenho uma visão do horizonte. Sob os raios que me iluminam, os morros à volta e o mar à frente, a natureza se mistura. Será minha última lembrança do alto da ilha.

Entro no barco. Em trinta minutos estarei longe do paraíso. Prometo não voltar. Vou deixar o homem vagando, tentando se definir entre o céu e o inferno, enquanto vive no purgatório, importunando os nativos, sem saber se está vivo ou morto.

A travessia está quase no fim. O barco se aproxima da margem. Puxo a máquina fotográfica para bater uma última foto da ilha, já afastada. Um vulto passa na frente da câmera. Penso que estou ficando louca. Escuto uma risada. Olho pra trás. Ele está sentado no banco que há poucos minutos eu ocupava, sentindo o calor do meu corpo. Me seguiu até ali. Acho que vai me seguir por toda a vida...

Saturday, August 26, 2006

Conto Vencedor do Armazém Literário em 21/08/2006

O Velho

Despertara com os raios de sol atravessando a carne, como se a fritassem. Sentia-se estranha. O pescoço doía. Parecia que uma outra Sabina acordara pro mundo. Como se fosse mais forte, mais jovem e decidida. Não que fosse velha, pois aparentava uns vinte e poucos anos, mas conservaria aquela aparência eternamente.
Foi a partir daquela manhã que deixou toda a sua vida pra trás. Família, amigos, namorado. Passou a vagar pelo mundo. Nada era mais importante que seguir em frente. A cada mês, um novo país. A cada manhã, uma nova cidade. Não necessitava de muita coisa, além de si própria. Seus sentidos haviam se aguçado. Desenvolvera a habilidade de conhecer as pessoas e suas almas. Sabia dissuadí-las, provocá-las, influenciá-las. Quase não se alimentava, pois não sentia fome. Não sabia se recebera uma dádiva ou um pesadelo. Só conseguia lembrar de um homem de capa preta, caminhando em sua direção, naquela noite em que o luar clareava os becos escuros da cidade.
Não entendia ao certo quem era ou o que havia se tornado. Monstro, mito ou uma deusa? Só os deuses ou os super-heróis tem poderes e os usam para algum benefício da humanidade. Ela há muito tempo, não sentia nada, nada além de prazer momentâneo que depois se transformava em um grande vazio, em um castelo com um fosso cercado por crocodilos, onde se fechava por uma boa parte do dia, até sair à caça outra vez.
Andava por cidades desconhecidas, por lugares fétidos e luas inconstantes, procurando alguém igual a ela. Tentando localizar o estranho de olhos negros. Só ele poderia lhe explicar a dor, a tentação, a sua ausência de alma e sentimentos.

Os anos passavam para aqueles que Sabina um dia conhecera. Mas pra ela, era como se fosse sempre o mesmo ano. O tempo parecia muito lento. O relógio dava voltas e ela só se dava conta das mudanças de horário, através do sol e da lua. Sentia-se mais poderosa à noite. Durante o dia, andava como uma cidadã comum, mesmo sabendo intimamente que estava longe de todos os outros, os mortais.

Um dia, andando por uma extensa praia, próxima às dunas, um homem de cabelo branco veio caminhando pela beira-mar em sua direção. Cruzaram o olhar por um instante. Ela então o reconheceu. Havia abandonado aquele homem há mais de três décadas. Estava diferente. Um velho. Sozinho, andando como ela. Não a reconhecera, mesmo que o tempo não lhe houvesse passado, ainda que sua aparência continuasse a mesma. E então, pela primeira vez, depois de um longo período, sentiu saudades da família, dos cachorros, dele. Sentiu saudades de chorar. Uma lágrima de sangue caiu na areia. E Sabina seguiu. Não podia voltar.

Friday, August 25, 2006

Nosso Darth Vader interior

O Lado Negro da Força

Outro dia escutei na TV a seguinte notícia: o responsável pela paixão, é um hormônio que fica no organismo por dois anos consecutivos. Do ponto de vista prático estaria explicado porque o amor não permanece. As relações podem durar um mês, seis, um ano, mas nunca ultrapassar dois anos. Tudo culpa do hormônio. Salvo raras exceções em que este hormônio pode ser multiplicado, sofrendo a mutação na qual chamamos de amor. Se é que existe este amor ou não é apenas uma paixão de costumes, de convivência, de conveniência.
O normal atualmente é escutar : A fila anda! Pois é, a fila sempre anda. Se sentir saudades, gira a catraca pra trás e volta. Como muitos fazem, continuando separados, porém juntos.
Desde crianças nos ensinam sobre o amor universal, o amor impresso no Coríntios. Ele é benigno, se fortalece, é fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente. E mesmo assim, continua sendo amor.
Nos acostumamos aos finais felizes de filmes e novelas. Mas e na vida, como é? Wake up to reality. O amor constrói, mas também destrói. Amor é o contrário do ódio. Pessoas se aniquilam gradativamente por amor. Tudo por amor. Tudo para explicar um sentimento tão engrandecedor, tão admirável.
Escreveu Mark Twain: “ Cada um é uma lua e tem um lado escuro que não mostra a ninguém.”
Todos somos bons e maus, racionais e emocionais Um simples acontecimento desperta um lado fortemente e anula outro. Nem tudo é mau, nem tudo é bom. E tudo pode ser muito mau ou muito bom.
Até este admirável sentimento pode despertar o lado negro da força. O personagem Darth Vader é um exemplo disso. Tudo o que ele fez foi por amor, por medo de perder seu amor. Quem assiste o “Episódio III – A Vingança dos Sith”, entende o desencadeamento dos outros cinco filmes. Por medo de perder seu amor, ele simplesmente o perdeu, se transformando em um ser mais máquina que homem, racional quase ao ponto da irracionalidade.
Eu me pergunto até que ponto é justificável. Tudo em nome de um sentimento. E me pergunto quantos Darth Vader existem por aí. Endurecidos, maquinizados, calculistas. Até aparecer algum Luke Skywalker que volte a despertar uma ponta de sentimento e mais uma vez, humanizá-los.
Deuses da Internet


Escreveu Shakespeare: “ Há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha nossa vã filosofia.” Sempre penso nisso quando quero entender coisas inexplicáveis. Essa frase, escrita há séculos, é quase uma visão profética, alcançando o invisível.
Porque temos sensações que não sabemos definir, pressentimentos que devemos ir ou não a determinado lugar e mesmo assim quando teimamos, algo ruim acontecesse? Seria um sopro do universo em nossos tímpanos, penetrando em nossas mentes, acionando o comando do discernimento?
Quantas vezes ficamos chateados por algo não ter se realizado e depois, lá na frente, em um ponto distante do futuro, agradecemos aos céus pela privação momentânea.
O universo é um ciclo, está sempre em movimento. Tudo se transforma, nada fica estático. Até as árvores envelhecem e suas raízes apodrecem, virando posteriormente, matéria orgânica. Então, não adianta reclamar que a vida não anda, quem tem que andar é você. A velha história dos passos de bebê. Vá engatinhando, levantando, dando uns passinhos e siga em frente, tentando não cair. Quando menos esperar estará com passos firmes, andando como adulto, como homem.
E muito cuidado com o que pede aos deuses, pois eles podem atender. Esteja preparado pra agüentar o desejo atendido. Não era o que você mais queria?
Infelizmente esse universo de pedidos, desejos e realizações, parece não funcionar muito bem na rede mundial de computadores. Deve existir um grande Deus que comanda tudo e ordena semi-deuses sobre o que deve ou não funcionar.
Já estou cansada de erros na página, sessões expiradas, e-mails que se perdem, spams, cavalos-de-tróia e tantas outras chatices. Mas uma vez que se entra na rede, você é hipnotizado, não consegue desgrudar do computador, não consegue parar. Sua programação, seus contatos profissionais, seus amigos, viram um exército em que você não pode desertar, com o risco do isolamento. Pra que telefonar se você tem e-mail, pra que tomar um café, se você tem MSN? É tudo mais rápido nesse contato virtual.
Há mais mistérios no mundo da Internet do que sonha nosso vão conhecimento. Está tudo rastreado e dominado pelo Grande Deus da Internet, aquele que tudo lê e tudo sabe, seguido pelos seus anjos e demônios, sempre em conflito, para que uma hora tudo funcione muito bem e em contraponto, em outras, absolutamente nada funcione.

Nunca te vi... Sempre te amei!!!

84 Charing Cross Road

(Roberta Larini)


Amores atuais. Amores virtuais. Intimidade trocada com desconhecidos tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes.
Lembro do filme “84 Charing Cross Road”, traduzido como “Nunca te vi, sempre te amei” com o Anthony Hopkins e Anne Bancroft. Ele um livreiro londrino, ela uma escritora norte-americana; trocam correspondência por vinte anos, mas nunca se conhecem pessoalmente. Tentativas não faltam, mas sempre acontece alguma coisa que os mantém ainda mais afastados fisicamente. Porém, o íntimo, o pessoal, os sentimentos se consolidam intensamente.
Voltamos ao mundo real. Pessoas trabalham muito, pessoas estão sempre com pressa, pessoas não tem tempo de dar atenção aos amigos reais. Estas pessoas, conseguem encontrar pequenas brechas de tempo em raros momentos de um duro dia de trabalho; raros momentos em que estão em casa e em vez de darem atenção à família, estão sentadas na frente de um computador.
Pessoas criam intimidade com pessoas que nunca viram na vida, mas que se tornam próximas, íntimas e pessoais. A Internet torna possível este acesso. Assim como os fotógrafos da National Geographic desbravavam continentes, desbravamos países, cidades e indivíduos. Somos pesquisadores, exploradores da vida alheia.
O MSN nos proporciona falar com alguém como se fosse ao vivo e a cores, pois pessoas costumam escrever da mesma forma que falam. Pessoas tem coragem de escrever o que não tem coragem de pronunciar.
Ainda tem o “Orkut” que não deixa de ser um google de indivíduos, um álbum de figurinhas exibicionista, uma Caras virtual. Fonte de contatos, encontros e desencontros para alguns, reputação degradada para outros. Alguns até cometem o orkuticídio, o famoso suicídio da rede. Sim, até isso já existe.
Penso se é possível transpassar o sentimento virtual para o mundo real. Acredito que sim, pois as pessoas se revelam, expõem seus medos e angústias virtualmente. O “Orkut” cria mitos e os indivíduos podem se tornar apaixonantes. Você idealiza alguém que não conhece e só enxerga qualidades. Você conhece a mente de um indivíduo antes de tocar no corpo, na matéria. A alma e o corpo. O peso e a leveza. A insustentável leveza do ser.
Portanto, dedico este texto a todos que não se conhecem, a todos que um dia virão a se conhecer. Nunca te vi, sempre te amei. Mas quem sabe um dia ...