Sunday, October 08, 2006

Na Mira...

Aquelas mãos

Michelangelo Buonarroti foi um homem atormentado pelas paixões. Um artista apaixonado pela forma, pela estética, pela vida. Um artista completo em toda sua essência. Pintor, escultor e até aspirante a poeta, nosso anjo italiano deu forma a uma das mais impressionantes imagens deste milênio.
A “Criação de Adão” é universalmente a mais conhecida obra de arte da Capela Sistina. Ela representa o centro e o início de um universo, o nosso mundo medíocre. Um mundo que começou errôneo, onde Adão e Eva foram expulsos do paraíso, onde Eva provou o fruto proibido mesmo sabendo as conseqüências.
Com Miguel Ângelo, enxergamos nossas vergonhas. Vemos as almas tentando subir aos céus e sendo puxadas pelos demônios de volta ao purgatório. Vemos o dilúvio limpando as nossas imperfeições. Aqueles que sobrevivem às violentas águas continuam.
Nestas obras metafóricas, nosso universo de sentimentos é revelado, o início dos tempos é contado simbolicamente para demonstrar nossos erros. Simbolicamente somos punidos, somos amados, somos expulsos de nossas terras, de nossas vidas, de nossas convicções. Estamos sempre indo e voltando de algum lugar. Sempre sendo puxados ou empurrados. Sempre avaliados em toda nossa essência, existência.
O único indiferente é Adão. Aquele ser desnudo perante a dualidade de um Deus onipotente que lhe estende a mão misericordiosa.
Dizem que a diferença entre Deus e o homem está no cérebro. Michelangelo, renascentista que era, foi fascinado pela anatomia humana e brincava com suas formas. O manto de Deus da Criação, representava um corte sagital do cérebro nele contido. Brincadeira constante em todas pinturas deste mestre, conhecedor das formas e dos instintos.
No entanto, após julgamentos, dilúvios e purgatórios, voltamos ao centro. E sempre temos um homem comum que representa toda a humanidade, alheio a todo sofrimento que acontece a sua volta. Este homem está na presença de Deus, seu Criador que lhe afasta de todas as adversidades do universo. Este homem está olhando para um Deus misericordioso na sua onipotência, na sua magnitude.
Diante de todos problemas e adversidades, haja o que houver, aconteça o que acontecer, sempre poderemos evocar aquelas mãos. Sempre poderemos acreditar que não estamos sós. Aquelas mãos nos unem à essência do universo, ao centro de onde viemos, para onde voltaremos e quem sabe, tocaremos... Aquela mão.

O Um Anel para todos Governar

Senhor dos Anéis


Seria o amor essa doação ilimitada a uma completa ingratidão? Seria esse amor deliciosamente desnecessário, sem jamais deixar se completar? A teoria gestáltica nos ensina a desviar nosso foco de atenção, a buscar novos horizontes, a esquecer o que não queremos viver, o que não queremos lembrar. Frederick Perls, psicanalista e discípulo de Freud, observou clinicamente seus pacientes e percebeu que em várias situações de vida presente no cotidiano de um indivíduo, aparecem necessidades que o organismo determina como sendo mais ou menos prioritárias.
O foco de atenção, o elemento principal em sentido e importância, está sempre e permanentemente se abrindo e fechando em nossas vidas. Porém, alguns indivíduos não conseguem fechar suas gestalts, sempre deixando situações de vida em aberto e sem solução.
Transcrevendo essa teoria para definir o verbo amar, pode-se dizer que nossos amores estão sempre em movimento. Amamos um, amamos muitos, não amamos ninguém. Sempre depende de uma variável. Em que situação nos encontramos em determinado momento de nossas vidas. O que é mais importante para nós em determinado momento. Trabalho, estudo, dinheiro, status, poder, família, amor... Qual a ordem dos fatores? Na escala crescente dos sentimentos, na avaliação individual do ser, quem é o número um para você? No amor, a ordem dos fatores altera o produto e muito.
Eternamente insatisfeitos buscamos o belo, o inteligente, o perfeito. Buscamos pessoas de contos de fadas. O príncipe encantado que nos salvará da madrasta má (subtende-se as dificuldades do nosso universo) e que nos despertará para uma nova vida, para um mundo imaginário onde todos são perfeitamente felizes. E assim caminhamos encontrando muitos sapos no meio do caminho. Muitas pedras no meio do caminho. Sempre em busca da nobre visão de um cavalo branco. Sempre em busca dos elfos - altos, nobres, perfeitos - escondidos em alguma floresta de uma terra isolada, distante. Alguns se contentam com orcs, com magos, com hobbits. Outros passam a vida procurando a floresta encantada, em busca dos elfos imaginários.
E assim trilhamos os mais árduos caminhos das Terras de Mordor, cruzando por todos seres que lá habitam. Os hobbits se tornam nossos amigos, os orcs eternos inimigos, os magos, indíviduos que nos iludem e que acreditamos e nos envolvemos por um tempo.
No entanto, estamos sempre buscando o “Um Anel”. O “Um Anel” para todos governar e na sombra aprisioná-los. Estamos em busca do nosso centro de poder, daquele que superará a todos, daquele por quem iremos lutar, defender e amar. Alguns já encontraram esse “Um Anel”, outros pensam que encontraram. Infelizmente, a maioria está destinada a vagar pelas inóspitas Terras de Mordor e talvez um dia, algum dia, encontrem o anel de poder no centro das Montanhas da Perdição, próximo ao fogo onde foi forjado.