Monday, April 26, 2010

A Colecionadora

Se um dia pensara em se matar, esse dia já havia passado. Tudo passara. Até mesmo, aquela constante sensação de “espelho quebrado”. Os sete anos de mau tempo em que a vida se tornara, como se houvesse caído sete quedas. Morrera tantas vezes que os dedos das mãos e dos pés, não eram suficientes pra contar quantas precisara renascer. Tantas quanto a haviam matado. Lá no seu interior, quando lhe pisaram o peito, quebrando as costelas e esmagando o coração. Lembrava de ter evocado um único desejo. Um único pedido no dia de seu aniversário. E então lhe arrancaram tudo. Mandaram sua alma ao purgatório. Raquel foi ao inferno e voltou, permanecendo nos mistérios que não se enxergam, entre o céu e a terra. Seu corpo continuava aqui, mas a essência do seu ser, vivia na prisão entre as sombras. Tão nebulosa quanto a sua vida. Já não sabia o quanto podia suportar. Estava cansada de fingir, de responder perguntas desnecessárias, de dizer a todos que tudo ia bem. Mais um pouco, concorreria como atriz principal ao Oscar. “And the Oscar goes too...” A frase reverberava quando sonhava acordada. Pensava no Anthony Quinn, um ator mexicano, que fez sucesso nos Estados Unidos e viveu seus últimos anos na Itália. Olhava pra parede branca da sala e via Zorba dançando, como no filme, com aquela contagiante felicidade. Zorba... Que filme pra lembrar naquelas horas... Pra cada momento um filme. Pra cada vida um momento. Pra cada movimento uma história. E se o Quinn tinha nascido pobre, morado em um casebre, colhido maçãs na Califórnia e se tornado astro em Hollywood, dando um salto olímpico na vida, então o que ela passava, não significava nada. Depois de sete anos, resolveu reagir. Após ter sonhado com o grande ator. Um sonho em que ele não pronunciou uma única palavra, mas a presença e a forte imagem dele, representavam tudo.

Foi assim que uma mão agarrou-lhe o pulso e a puxou pra luz. Rasgou a névoa que encobria o horizonte e foi ao encontro dos raios de sol. Abriu o armário do quarto. Pegou a mochila e jogou algumas roupas dentro. Retirou os dólares do fundo do roupeiro. Não precisaria de muitas coisas, além de si e da própria coragem. Assim, foi para a rodoviária. Destino: as Cordilheiras.

Nos Andes, poderia escalar o seu próprio mundo e fincar sua bandeira num território até então mal administrado, a sua mente. Estava lá, no centro de Mendoza, quando resolveu pegar um ônibus e atravessar os portões dourados do Parque General San Martín, em direção às montanhas. Lá no alto, sentada no muro de pedra, com a Cordilheira ao fundo, a cidade aos pés e o sol ao alto, paralisou em um momento perfeito, no qual não necessitava de fotografias, mas que recordaria como um dia de renascimento congelado no tempo.

Atravessava os Andes em direção à Santiago do Chile. Nesse trajeto da estrada, as montanhas tomavam uma forma mais definida, como se as mãos de Deus, a tivessem penetrado com os cinco dedos, deixando sua marca impressa nas rochas. Parou próximo ao Aconcagua. O pico mais alto da América Latina, ainda possuía neve no cume, apesar do seco calor de verão. Captou mais um momento.

A mente, como se fosse um potente computador, passou a registrar imagens fotograficamente. Guardou a imensidão dos Andes, o misticismo da Índia, o charme de Paris e a imponência do Vaticano. Gravou momentos e juntou os pedaços de um quebra-cabeças, dos idiomas, das palavras e expressões, das pessoas que conhecera e que agora formavam o seu todo, o que havia se tornado. Uma colecionadora de momentos perfeitos. Vivia intensamente, sem se preocupar em dar explicações, guardando tudo o que sentia, como se fosse uma dádiva.

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