Monday, April 26, 2010

Cine Baltimore

Entro no ônibus correndo, atrasada para a faculdade, sento no primeiro banco. Um movimento intenso no centro de Porto Alegre, hora que todos mortais saem do trabalho.

Um senhor em torno de seus sessenta anos está sentado ao meu lado. Puxa assunto.

- Que calor hein? Mas até quinta-feira chove. Dizem que no interior cai até granizo.

Sorrio.

- É, esse tempo é assim mesmo. Chuva, sol, granizo. Nunca se sabe.

Estendemos o assunto.

- Meu filho estuda Administração na UFRGS. Trabalha o dia todo, mas disse que quer se formar pra fazer concurso.

- Eu estudo Jornalismo, mas na PUCRS. Estou indo pra aula agora. Também quero fazer concurso, mas não espero me formar pra isso. Faço enquanto estou na faculdade. É a única forma de se manter em um emprego.

O ônibus sai do Viaduto da Conceição e dobra na Oswaldo Aranha.

- Olha só, estão destruindo o cine Baltimore! – diz o senhor espantado.

Olho pro outro lado da rua e enxergo um prédio velho, sem pintura, coberto de telas de proteção, com uma porção de operários de capacete à volta.

- Tu não deves ter conhecido, mas esse cinema era um lugar de encontros em Porto Alegre. Muitos festas eu fui no salão de baile do cinema. No segundo piso tinha um espaço pra isso. O bairro ficava movimentado, o salão lotava. Todos da minha idade vinham pra cá.

- Eu conheci o cinema também, antes de encerrarem as sessões, ia na minha infância. Depois reformaram e inauguraram quatro cinemas, até exterminarem as sessões de vez. O cinema de shopping matou o cinema de bairro, por uma questão de segurança e praticidade..

- Mas tu não tens tanta idade assim!

- Também não sou tão jovem, freqüentei diversas vezes esse cinema.

Fico imaginando como eram os bailes, as mocinhas em seus vestidos recatados, esperando os rapazes pra dançar de rostinho colado. Quantos namoros, casamentos, filhos e netos não foram gerados nestas festas. Tenho até a sensação que este senhor ao meu lado deixou um amor perdido em um desses encontros, alguém que não esqueceu, com quem não se casou e por quem a lembrança permaneceu vívida, por todas as vezes em que passou em frente àquele prédio destruído.

E agora, que coisa concreta substituiria aquelas lembranças? Um mini-shopping ou quem sabe um prédio comercial. Os jovens que por ali passarem, talvez nem saibam que um dia existiu um cine Baltimore em Porto Alegre. Um cinema em que além de filmes, havia bailes. Um ponto de encontro em um dos bairros mais tradicionais de nossa querida cidade, o Bonfim.

O ônibus entra na Avenida Ipiranga, cedo espaço para o senhor levantar.

- Eu desço aqui, boa aula pra ti!

Antes de descer me olha mais uma vez e sorri.

Sorrio, levanto a mão e abano em sinal de despedida.

A Colecionadora

Se um dia pensara em se matar, esse dia já havia passado. Tudo passara. Até mesmo, aquela constante sensação de “espelho quebrado”. Os sete anos de mau tempo em que a vida se tornara, como se houvesse caído sete quedas. Morrera tantas vezes que os dedos das mãos e dos pés, não eram suficientes pra contar quantas precisara renascer. Tantas quanto a haviam matado. Lá no seu interior, quando lhe pisaram o peito, quebrando as costelas e esmagando o coração. Lembrava de ter evocado um único desejo. Um único pedido no dia de seu aniversário. E então lhe arrancaram tudo. Mandaram sua alma ao purgatório. Raquel foi ao inferno e voltou, permanecendo nos mistérios que não se enxergam, entre o céu e a terra. Seu corpo continuava aqui, mas a essência do seu ser, vivia na prisão entre as sombras. Tão nebulosa quanto a sua vida. Já não sabia o quanto podia suportar. Estava cansada de fingir, de responder perguntas desnecessárias, de dizer a todos que tudo ia bem. Mais um pouco, concorreria como atriz principal ao Oscar. “And the Oscar goes too...” A frase reverberava quando sonhava acordada. Pensava no Anthony Quinn, um ator mexicano, que fez sucesso nos Estados Unidos e viveu seus últimos anos na Itália. Olhava pra parede branca da sala e via Zorba dançando, como no filme, com aquela contagiante felicidade. Zorba... Que filme pra lembrar naquelas horas... Pra cada momento um filme. Pra cada vida um momento. Pra cada movimento uma história. E se o Quinn tinha nascido pobre, morado em um casebre, colhido maçãs na Califórnia e se tornado astro em Hollywood, dando um salto olímpico na vida, então o que ela passava, não significava nada. Depois de sete anos, resolveu reagir. Após ter sonhado com o grande ator. Um sonho em que ele não pronunciou uma única palavra, mas a presença e a forte imagem dele, representavam tudo.

Foi assim que uma mão agarrou-lhe o pulso e a puxou pra luz. Rasgou a névoa que encobria o horizonte e foi ao encontro dos raios de sol. Abriu o armário do quarto. Pegou a mochila e jogou algumas roupas dentro. Retirou os dólares do fundo do roupeiro. Não precisaria de muitas coisas, além de si e da própria coragem. Assim, foi para a rodoviária. Destino: as Cordilheiras.

Nos Andes, poderia escalar o seu próprio mundo e fincar sua bandeira num território até então mal administrado, a sua mente. Estava lá, no centro de Mendoza, quando resolveu pegar um ônibus e atravessar os portões dourados do Parque General San Martín, em direção às montanhas. Lá no alto, sentada no muro de pedra, com a Cordilheira ao fundo, a cidade aos pés e o sol ao alto, paralisou em um momento perfeito, no qual não necessitava de fotografias, mas que recordaria como um dia de renascimento congelado no tempo.

Atravessava os Andes em direção à Santiago do Chile. Nesse trajeto da estrada, as montanhas tomavam uma forma mais definida, como se as mãos de Deus, a tivessem penetrado com os cinco dedos, deixando sua marca impressa nas rochas. Parou próximo ao Aconcagua. O pico mais alto da América Latina, ainda possuía neve no cume, apesar do seco calor de verão. Captou mais um momento.

A mente, como se fosse um potente computador, passou a registrar imagens fotograficamente. Guardou a imensidão dos Andes, o misticismo da Índia, o charme de Paris e a imponência do Vaticano. Gravou momentos e juntou os pedaços de um quebra-cabeças, dos idiomas, das palavras e expressões, das pessoas que conhecera e que agora formavam o seu todo, o que havia se tornado. Uma colecionadora de momentos perfeitos. Vivia intensamente, sem se preocupar em dar explicações, guardando tudo o que sentia, como se fosse uma dádiva.

Relançamento Ficção de Polpa


Com Lu Thomé, Annie Muller e Rafael Jacobsen no relançamento do Ficção de Polpa.

Wednesday, October 22, 2008

Sessão de Autógrafos na Feira do Livro 2008


Dia 10/11 terá uma nova Sessão de Autógrafos do 104 na Feira do Livro de Porto Alegre. Será no Memorial do RS às 20h. Estarei lá e aguardo a presença de todos!

Escritores no lançamento do 104




Também estavam presentes o Rudiran Messias que publicou "Tabus, perversões e outras catarses" e o Rodrigo Rosp, da Não-Editora, autor de "A virgem que não conhecia Picasso".

Lançamento do "104 que contam"


Ontem, 21/10/2008 aconteceu o lançamento do livro organizado pelo Charles Kiefer. Eu estava lá e publiquei o meu conto "Paixão, café e outras coisas fumegantes".

Monday, December 03, 2007

Convite


Quer um autógrafo meu? Aguardo vocês lá!!!

Thursday, November 01, 2007

Ficção de Polpa na Feira de Livro de Porto Alegre

Aconteceu às 20h - 31/10 no Memorial do RS

"Novos Contos Imperdíveis"

Ana Mariano, eu, Nelson Safi e Daniela Langer

Feira do Livro de Porto Alegre

Às 14h - 31/10 foi o lançamento e Sessão de Autógrafos dos "Novos Contos Imperdíveis", organizado pelo Charles Kiefer. Na foto: Paulo Tedesco (autor e editor), eu e Eni Allgayer.

Friday, July 13, 2007

A ilustradora Gisele Oliveira e nós os escritores - Samir Machado, eu, Marcelo Juchem, Gustavo Faraon, Sergio Napp e Luciana Thomé


Rafael Jacobsen e eu


Autografando o "Ficção de Polpa" ontem à noite


Sunday, June 24, 2007

Grupo de autores do "Ficção de Polpa" - Casa de Cultura Mario Quintana



Na foto: Guilherme Smee, Rafael Jacobsen, Alessandro Garcia, Antonio Xerxenesky, Gustavo Faraon, Rodrigo Rosp, Annie Müller, Silvio Pilau, eu, Marcelo Juchem, Luciana Thomé, Sergio Napp, Rafael Spinelli, Rafael Kasper e Samir Machado.

"Ficção de Polpa"


"Ficção de Polpa" será o próximo livro que estarei publicando. Meu conto "Ventre" estará entre outros contos de suspense, ficção e realismo fantástico. Vale a pena conferir. Lançamento: 12 de julho de 2007.

Thursday, December 28, 2006

Com o livro na mão, no dia do lançamento

Convite para o lançamento do livro dia 12/12/2006

Conto publicado no livro "103 que contam", organizado por Charles Kiefer

Espetáculo

O meu caos concebeu a obra-prima da noite. A cortina vermelha se abre lentamente. Rugem os tambores. Entro em cena imponente no palco escuro com a luz incidindo sobre mim, cercado pelo breu à minha volta. Sou Macbeth, o general, futuro rei da Escócia.

Inquieta, me movimento na cadeira no comprimido espaço do camarote do teatro. Analiso o lustre de cristal, enquanto a peça não inicia e a cortina não se abre. Observo a platéia, logo abaixo dos meus pés. As pessoas continuam entrando, procuram suas poltronas e demoram a se acomodar. Sou Julieta, apenas mais uma espectadora entre tantos.

Três feiticeiras se movimentam e contorcem de um lado para o outro. Gritam nos meus ouvidos, me deixam quase surdo. Só escuto zumbidos nos tímpanos, perante o silêncio da platéia. Grito também. As chamo de oráculos imperfeitos. Mando esperarem. Ordeno que fiquem e elas desaparecem na névoa. Tento me concentrar na minha próxima fala. Digo a Banquo que no ar, o que parecia corpóreo, dissipou-se com a respiração do vento. Sou apenas um ator, intérprete de Macbeth, nervoso por ainda não tê-la visto na platéia.

A cortina finalmente se abre e o ator principal entra em cena. É apenas mais uma peça do festival de teatro de Porto Alegre. Respiro fundo após sentir um intenso arrepio. Começo a rir das piadas daquela comédia de costumes. Fixo o olhar, concentrado no palco, absorta em pensamentos. Gostaria de vê-lo abaixo de mim, à minha frente, em meio àqueles objetos do cenário. Não o vejo. Ele é um general e será rei em outro estado, em outro teatro, longe de mim.

Já estou no segundo ato. Minha Lady diz pra não me perder miseravelmente em meus pensamentos. Me sinto perdido há muito tempo. Minha falta de coragem me paralisou até agora. Ao invés de estar com ela, estou aqui, com esse público, nesse teatro lotado. Minha Senhora me disse que tem as mãos da cor das minhas, mas sente vergonha de ter um coração tão branco. O meu é escarlate, trabalha com taquicardia, amplia de tamanho a cada segundo e parece que vai explodir, a cada minuto que procura por ela. Julieta prometeu que vinha me ver.

Penso naquele teatro feito de arames em Curitiba. Gostaria de abandonar os cristais, a pompa e circunstância da sociedade porto-alegrense e estar lá, acompanhando os holofotes, sob a luz da noite que penetra pelas armações de ferro. Na Ópera de Arame eu estaria próxima a ele. Quem é aquele que agora transpõe a porta? É apenas um desses aspirantes a ator. Quisera fosse ele, o meu amor. Cedo demais o vi, sem conhecê-lo, e tarde demais o conheci. Trinta e dois anos pra saber da existência dele. Teria sido mais fácil se tivéssemos nos encontrado antes e eu não precisasse vivenciar tantos fracassos. Teria apenas ele. Queria agora que tivesses meus ossos e eu tuas notícias. Olho para o palco e não te vejo. Vejo a peça em que não queria estar, por não poder ir até você.

A estranha ilusão que imaginei é um medo novo que necessita da dura experiência. Acabo de pronunciar estas palavras e me sinto exatamente dessa forma. Será minha melhor noite de apresentação, pois iniciei com a glória de um general e me encaminharei para o derradeiro fracasso. Programei o espetáculo para apresentar como um presente à Julieta e, no entanto, não a identifico na platéia, entre tantas pessoas e arames. Estaria ela escondida ou simplesmente não a vejo?

Necessito saber notícias tuas a todo dia e toda hora. Sei que me esperaste esta noite. Infelizmente não pude avisar-te. Não consegui um vôo de última hora para ver-te. Mas assim que puder chegar a ti, eu confessarei que te amo. Por enquanto me sinto com uma adaga enfiada no ventre, me sinto morrer e cair. A cada minuto sem ti, parecem dias. Boa noite, querido! Desculpa por não estar te assistindo. A despedida é uma dor tão culposa que estaria dizendo “Boa noite” até que chegasse o dia.

Já quase me esqueci do sabor do medo. Estava pronto para recebê-la esta noite e me entregar a ela, assim como fiz nesta peça. Apresentei com toda minha energia, na esperança de que Julieta estivesse na platéia me assistindo. Deve estar em algum lugar de Porto Alegre. Não veio e não mandou notícias. Sinto um bosque vindo em direção a mim. Não tem mais importância. Grito que não me renderei e me rendo a mim mesmo. Assim, perco a cabeça duas vezes. A cortina se fecha.