Thursday, September 21, 2006

Cinema, Fantasmas e Outras Coisas Estranhas

On the Water

A “Dama na Água”, é o filme mais estranho, de todos os filmes esquisitos de M. Night Shyamalan. Suas histórias são tão absurdas que se tornam interessantes. Em quem se inspiraria esse diretor indiano? Seria alguma influência de Poe, de Kipling?
Histórias de fantasmas, de seres “imaginários”, não são oriundas deste século. Elas sempre existiram e são transmitidas há gerações. Seria Cristo, o primeiro fantasma de que temos conhecimento? Se o espírito saiu da gruta, como pode o corpo ter desaparecido? Talvez tenha permanecido lá, se desintegrando com a ação do tempo. Analisando fisicamente e quebrando os paradigmas cristãos, um corpo que sobe aos céus ficaria em qual lugar do espaço? Vagando pelas galáxias, como um meteoro perdido? Não, muito provável que entrasse em combustão. Mas deixando de lado a doutrina católica, vamos nos transportar para a literatura, especificamente aos tempos de Shakespeare. Em “Hamlet”, temos a companhia de um espectro por toda a peça, ou melhor, o príncipe da Dinamarca, é acompanhado. Morrer... Dormir... Sonhar talvez... Imaginar. Criar.
M. Night Shyamalan produz filmes de histórias que poderiam ser lendas ou tema de imaginação popular. O menino sensível de “O Sexto Sentido” (I see dead people), a moça cega que descobre os segredo de uma sociedade isolada em “A Vila”, a invasão alienígena em “Sinais”. No entanto, são temas que poderiam ser possíveis. Em “A Dama na Água” nos encontramos com uma ninfa que emerge de uma piscina e deve voltar ao seu mundo levada por uma águia, após encontrar um curandeiro, uma irmandade e um escritor. Mas não pára por aí.A frágil moça, que passa o filme nua e molhada, é perseguida por um lobo em forma de grama, conseqüentemente perseguido por macacos-grama. Porém, todos esses seres, são símbolos que nos transmitem filosofias, assim como as lições morais das histórias infantis; um conto de fadas moderno. Estranho? Não para M. Night Shyamalan.

Saturday, September 09, 2006

Conto publicado no site do Charles Kiefer : www.charleskiefer.com.br/oficina

O Buraco

Não era um buraco qualquer, desses que se encontram por aí, pelo meio da rua, no asfalto. Era simplesmente “O Buraco”. Assim fora intitulado pela família.
Sabina até já havia esquecido dele. Mas, um dia, em uma daquelas típicas provocações familiares, num daqueles almoços de domingo onde todos já beberam além da conta e os pratos limpos são colocados à mesa de tal forma que a comida se torna indigesta, foi levantado o assunto daquela noite, há exatos vinte e cinco anos. Sua mãe sempre se indignava com a história e proferia palavras de tal forma como se ela fosse a mártir, quando era justamente o contrário, pois quem tinha sofrido o flagelo e a humilhação fora sua filha.
No entanto, Sabina não se ressentia pelo acontecimento e achava muito engraçado quando relembravam a história, despertando uma maior indignação.
Neste dia, sentiu saudades da infância, das tardes com o avô, da despreocupação com o mundo. Sentia falta do que havia sido e do que não dava mais tempo pra ser. Queria resgatar aquela criança. Aquele ser que ainda era ela e se escondia em algum lugar, lá no fundo.
Então lembrou da bicicleta vermelha. O que havia acontecido com ela? Foi a primeira bicicleta, aquela Caloi com rodinhas. A indescritível emoção e adrenalina por aprender sozinha e manter o equilíbrio, seguindo adiante. Pelo resto da vida continuaria pedalando, em todos os momentos bons ou ruins.
Resolveu revirar o passado, ou o que tinha restado dele. Andando pela casa foi até a despensa e se deparou com uma porta lacrada, uma falsa porta. Abriu e entrou. Era uma sala enorme, escondida dos ambientes da casa. Um lugar mofado, com cheiro do passado onde se encontravam todas as etapas da vida de Sabina. Ali, no “Buraco”, tudo que já não tinha serventia ficava entulhado como peças de museu, pois sua mãe tinha mania de guardar tudo e não se livrar de nada.
Assim, em meio ao bolor, ao aspecto centenário, reviveu todas as fases de sua vida. Encontrou objetos de infância, peças de adolescência e outras do início da fase adulta. Começou a revirar tudo, pegava objetos empilhados e atirava longe. Queria dar um pouco de movimento à inércia do buraco. Foi assim, que embaixo de uma pilha de entulhos, enxergou o objeto vermelho e então o puxou. A velha bicicleta, encadeadora de tantas discussões, continuava ali, como se o tempo não tivesse passado. Estava intacta, sem nenhuma ferrugem, o vermelho ainda vibrante.
Sentou na bicicleta e rememorou o dia de seu aniversário, na data em que completava cinco anos, quando tirou o vestido de festa, colocou um pijama e saiu atropelando os convidados. Levou uns bons tapas, além da proibição por tempo indeterminado de tocar na Caloi.
Sabina riu alto. A história sempre rendia discussões, principalmente com os comentários da mãe. Olhou carinhosamente para o objeto. Já sabia o que fazer no próximo aniversário.